Capítulo 2 – Aparece o Segundo Aparecido
Segue em frente toda a vida! Esta foi a última coisa que Cidão lembrava ter ouvido ao deixar Florianópolis e começar a sua jornada por deus sabe aonde. Ele não sabia precisar a idade que tinha quando tudo começou. Lembrava vagamente de seu pai, que alguns diziam ter morrido de tiro. Mas sua mãe durante algum tempo disse a ele e suas irmãs que Jorge tinha se afogado, tirando camarão de uma laguna.
A tristeza causada pela Iara não teve muito tempo para ser sentida. Matilde, poucos dias depois do desaparecimento do marido mostrou para os filhos o novo companheiro. Nem tinha passado uma semana, Aparecido e Angélica, a caçula que ainda nem sabia ir ao banheiro sozinha, já dormiam embaixo de marquises, ou no lugar em que estivessem e não fossem expulsos. Dos outros três irmãos só Xuxa, a mais velha, ficou na casa junto com a mãe e o novo companheiro, participando cada vez mais das cachaçadas.
Num dia, Cidão achou melhor levar Angélica para a mãe, já que ele não sabia o que fazer, pois a menina só estava dormindo e chorando já há algum tempo. Entrando pelo pequeno pátio onde antes o pai costumava plantar verduras, sentiu um cheiro ruim e chegou a ver um pequeno monte de terra do lado da cerca de madeira quase podre, dentro da qual saia um pedaço de tecido verde mar, igualzinho àquele vestido que Matilde costumava usar. Dentro de um dos dois quartos, num colchão acomodado no piso, Xuxa dormia num canto; e o padrasto noutro. No meio estava a garrafa de aguardente.
Só lhe restou pegar o carro de mão que era de Pai Jorge, acomodar a irmã em uma coberta e sair de vez daquele lugar horripilante. Foi bater na casa da madrinha de ambos. Tia Xica pegou a menina, levou no posto de saúde, onde a pequena levou uma injeção de Benzetassil. Se antes passara pela cabeça a idéia de pegar a afilhada para criar; o diagnóstico dos médicos de febre reumática a convenceu entregar a criança novamente para o irmão, também criança, dar-lhes uns trocados e mandá-los para bem longe.
Assim Aparecido e sua irmã iniciaram uma história de vagar. E lá estavam perto da Lagoa da Conceição quando um Chevrolet Opala parou perto deles e perguntou para o transeunte próximo o caminho para sair da ilha. Depois de algumas explicações, o senhor que explicava a rota finalmente complementou com o "segue em frente toda a vida". Era um bom lema para usar e a partir daquele momento Cidão conduziu sua existência buscando permanentemente seguir em frente. Com o carro de mão fazendo às vezes de mala e carrinho de bebê ao mesmo tempo, demorou dois dias para finalmente chegar ao continente, cruzando a ponte Hercílio Luz, não sem antes ter que fazer uma longa parada para convencer o posto de saúde a dar outra injeção de benzetassil em Angélica, novamente ardendo em febre.
Tomando a Br 101, seguiu sem saber porque a direção do norte e foi atrás do caminho que lhe parecia mais verde. Catando frutas, raízes, milho e matando passarinhos e pequenos animais à pedrada alimentou a si próprio e a irmã, nas raras vezes em que os dois não recebiam comida de caridade, ou faltava algum bico para ganhar uns trocados.
Afinal de contas, apesar de um tanto quanto incomum, eles acabaram tendo uma infância feliz. Não demorou muito para que os modos ríspidos a que estavam acostumados na casa dos pais fossem completamente abandonados em troca de um convívio repleto de carinho entre os dois. E foi assim: seguindo em frente toda a vida, caminhavam pela estrada, nunca retornando ao passado e não se demorando mais do que alguns dias ou semanas em alguma cidade ou vila; somente o necessário para conseguir dinheiro para comida e roupas que servissem, já que os dois não paravam de crescer.
Num dia frio de julho, como de costume, estava Aparecido caminhando pelo acostamento da rodovia, enquanto sua irmã dormia no carrinho de mão, agasalhada por uma confortável coberta que haviam ganho há pouco tempo. Diante de uma bifurcação ele parou para decidir o caminho a ser seguido. Sendo um bom aluno nos tempos de escola municipal, estava alfabetizado suficientemente para entender o que dizia a maior parte das placas de sinalização. Naquela situação, uma seta indicava o caminho para Joinville e Curitiba, enquanto outra mostrava que à esquerda estava Blumenau, cuja rota parecia mais bonita e a subida menos íngreme. Assim, atravessou a faixa e tomou rumo oeste.
Vez por outra acontecia de se juntarem por algum tempo com outros andarilhos. Perto de Curitibanos conheceram o Vovô que lhes ensinou as maneiras de pedir dinheiro nas saídas dos restaurantes e lanchonetes dos postos de combustível. Aparecido bem que achava mais fácil se oferecer para algum biscate; mas trabalhar era coisa que não se fazia, professorava o amigo, que por algumas semanas se dizia protetor. Diga-se de passagem, o garoto não gostava do incessante hálito de Vovô, que lhe trazia a recordação da triste época entre o desaparecimento do pai e o definitivo abandono do lar. Naqueles dias Angélica já não conseguia mais se acomodar por muito tempo no carrinho de mão. Suas pernas sobravam e a energia da menina era muito grande para evitar sua constante tagarelice e necessidade de movimento. Durante aquelas semanas os irmãos quase se acostumaram a entregar o dinheiro da esmola para o protetor, cujo comportamento se tornava cada vez mais brutal. A doçura inicial de Vovô foi substituída por promessas de porrada e muita bebedeira. Numa manhã, finalmente a ameaça se tornava real: Aparecido foi acordado com um tabefe no rosto desferido pelo bêbado, que o desvencilhou dia Angélica, acostumada a dormir agarrada ao braço do irmão. Colocando a menina no ombro direito, tal qual um saco de laranjas, Vovô foi cambaleando lentamente na direção de um caminhão com a porta aberta, onde havia um homem esperando. A mente do garoto reviveu a cena do padrasto, a garrafa de pinga e Xuxa no colchão; enquanto a ponta do vestido da mãe saia de dentro da terra. Naquele momento ele entendeu o significado da morte; e sem pensar, desatou a correr, só parando na hora de desferir o mais forte pontapé de que era capaz atrás do joelho do vagabundo, sendo isto suficiente para derrubá-lo e resgatar a menina. Enquanto o velho se contorcia, ao mesmo tempo em que fazia ameaças mortais, os dois irmãos rapidamente foram ao local onde escondiam o carrinho de mão, sempre pronto para a partida, e seguiram adiante pela estrada. O cheiro de cachaça dali para diante sempre deveria ser evitado... Segue em frente toda a vida, pensou mais uma vez Aparecido.
O caminho continuava e uma mania se estabeleceu entre os irmãos. Cidão lia, ainda com alguma dificuldade, as placas indicativas de cidades e outdoors, e Angélica olhando para o mesmo objeto repetia as palavras proferidas. Mas na passagem por Xanxerê começou a ocorrer algo engraçado. Aparecido tinha deixado de pronunciar o aviso "Máquinas na Pista". Aquele hiato foi preenchido pela doce voz da menina que à custa de visível esforço de entendimento conseguia decodificar aquele símbolos e transformá-los verbalmente nas palavras que indicavam. Nas semanas seguintes ela estava empenhada em ler as placas mais rapidamente que o irmão, o qual, com o tempo abandonou o hábito, deixando-o ao cargo dela. Mais algum tempo e Angélica já lia qualquer papel que lhe aparecesse diante dos olhos.
Saber traduzir o que dizem as letras é uma coisa; mas entender o significado das palavras escritas é um caminho bem mais desafiador. Assim, nas paradas para biscates nos postos de gasolina da estrada, a garota aproveitava o descuido do irmão em trabalho para entrar, ao contrário das ordens, nos restaurantes e lanchonetes e perguntar para os clientes o significado de pedágio, concreto, alimentação e outras tantas palavras que decifrava a fonética, mas queria conhecer os motivos para seu uso. Ela estava crescendo muito bela, mas sem perder a meiguice da primeira infância. Assim, ao vê-la primeira vez, seu aspecto maltrapilho e por vezes fedorento, logo era suplantado pela cativante personalidade que desenvolvia. Certa vez, numa churrascaria pouco depois de Francisco Beltrão, ela foi surpreendida deitada de barriga para o chão ao lado de um menino pertencente à família da mesa do lado, preenchendo com ele os jogos da revista Recreio. Aos costumes, a repulsa inicial da mãe do garoto foi prontamente substituída por profunda admiração ao observar que Angélica, isto sim, estava ensinando o seu filho. E mais surpreendente ainda, ele dava sinais de estar aprendendo, o que sempre foi tão difícil. Era assim: volta e meia lá estava ela fazendo suas perguntas, e além de aprender a resposta, procurava falar da mesma forma que as pessoas que tinham carro.
Enquanto isso Aparecido reparava no rápido surgimento de pêlos em várias partes do corpo, ao mesmo tempo em que batia uma inexplicável angústia e calafrios quando enxergava uma moça bonita. E foi em Cascavel, após passarem algumas semanas por uma rodovia mal cuidada, onde todos falavam de maneira estranha, que Aparecido pegou dois meses de trabalho como frentista, substituindo os empregados do posto que entravam em férias entre janeiro e fevereiro. Depois do expediente ele cada vez chegava mais perto das meninas com cara pintada que costumavam ficar em volta dos caminhões ao nascer da noite. Em especial, sentia inexplicável atração por Érika, chegando a ficar enervado quando ela se demorava muito nas cabines. Os colegas de trabalho logo perceberam o engatamento do rapaz, bem como o seu desconhecimento dos assuntos de homem. Explicaram o que fazer: se aproximar da rapariga com cinco ou dez cruzados, no máximo vinte; e se ela pegasse no dinheiro seria só segurar a mão dela, para ser conduzido ao local certo.
Aparecido, apesar de suar frio e tremer, fez exatamente o que lhe indicaram. Ao estender a mão com os valores, reparou que por baixo da grossa camada de batom saiu um sorriso com pureza quase infantil. Gentilmente ela puxou para si apenas a nota mais miúda e o conduziu para uma barraca oculta no meio do matagal das proximidades. Pela primeira vez Aparecido não dormia ao lado de Angélica. A aventura da noite prosseguiu com trocas de afagos ao amanhecer.
Hora de ir trabalhar. Cidão levanta-se rapidamente e ainda tem tempo de procurar pela irmã. A pequena, ao vê-lo, apenas o fitou rapidamente com olhos tristes e voltou a ler a Luluzinha que havia ganho no dia anterior. A mágoa, porém, se transformou em imensa alegria quando, na noite seguinte, Érika foi procurar pelo companheiro. Logo percebeu que ele estava dividido entre cuidar do sono da irmã e o usufruir daquele novo sentimento que lhe atingia o mais íntimo do seu íntimo. Sensível àquela cena, a jovem cortesã tratou de resolver sabiamente a situação.
- Prazer, sou Érika e tenho um lugar onde nós três podemos ficar juntos.
- Eu quero, disse Angélica, com largo sorriso.
E já no caminho para uma pensão das proximidades, as duas tagarelavam sem parar. Só bem mais tarde, quando a caçula adormeceu pela primeira vez em cima de um colchão, é que Erika permitiu a aproximação do impaciente Aparecido.
No dia seguinte, a transformação: às custas de um bom banho com água quente, xampu e o zelo maternal de Erika, aquele ser de cabelo cinzento e quebradiço de tão duro, havia deixado aparecer a linda menina ruiva, que estava escondida por trás de camadas de poeira da estrada acumuladas ao longo dos últimos anos. A nova amiga ficou ao mesmo tempo maravilhada e preocupada. Na hora que estava impondo o mesmo tratamento ao namorado, ela já foi avisando:
- Não deixe Angélica chegar perto dos carreteiros, senão ela pode acabar na vida.
Mesmo tendo cruzado a fronteira entre a meninice e o homem, Aparecido pouco entendia sobre o assunto, mas ficou curioso para saber da história de Érika.
- Querido, eu era muito feliz até o ano passado quando mamãe morreu. Isto aconteceu logo quando tinham encerrado as férias na escola. Eu estava mesmo ansiosa para começar a cursar o segundo grau. Tinha sido a melhor aluna da classe em todos os anos até a oitava série. Mas a partir de então tudo mudou. O juizado resolveu me entregar para meu pai, que eu não conhecia. Em poucos dias ele tinha tomado conta da casa que minha mãe montara e ainda pegou o dinheiro da poupança dela para comprar um Corcel que acabou destruído numa murada. Depois disso ele me trouxe aqui pelos cabelos, oferecendo o corpo da virgenzinha (falando isso com ódio) para caminhoneiro que lhe desse mais dinheiro. Ofertas não faltaram, apesar de todo o meu choro, rezas e pedidos de piedade. E aí, aconteceu o que aconteceu. Ele pegou o dinheiro que havia acertado e falou que dali a duas semanas estaria de volta para pegar mais. E que era para mim trabalhar direitinho, senão o pau iria correr solto. Isso faz quase dois anos que aconteceu. Graças a Deus tem uns três meses que o pai não vem aqui pegar dinheiro. Acho que desistiu ou aconteceu alguma coisa a ele. Melhor para mim, consegui guardar um dinheirinho. E até que tem uns caminhoneiros bem legais, disse com um sorriso sapeca.
Diante da provocação, Aparecido que não entendeu quase nada da conversa da garota, sentiu o ciúme brotar, e sem pensar convidou Érika para seguir em frente com eles. A moça prontamente aceitou a oferta e pegou o caderno para fazer planos. Seu sonho era ir para Campo Grande, onde tinha uma tia materna. Até tentou ir para lá, mas o juiz de menores não permitiu. Ela realmente havia gostado do namorado e não foi nenhum sacrifício parar com os programas. A partida deles iria acontecer no início de março, quando encerraria os dois meses do trabalho de frentista. Nesse meio tempo Érika se deliciou matando saudades da vida em família. Mas em vez de filha, ela tinha o papel de esposa e mãe, o que era maravilhoso. Enquanto não chegava o ansioso momento da partida, seu passatempo favorito era ensinar Angélica, que era ávida por aprender, e tudo compreendia com muita facilidade, a ponto de se tornar uma exímia leitora e superar a cunhada (uma senhora do restaurante disse para ela que é assim que se chamava a mulher do irmão) nas contas da matemática.
Finalmente, tudo estava pronto. O dono do posto já havia pago o último salário de Aparecido, incluindo gorda gorjeta por bons serviços e o convite para ficar lá permanentemente. O rapaz, segurando o carrinho de mão; a mulher apaixonada enrolada no seu braço; e a irmã com seus cabelos ruivos ao vento, carregando um grosso livro, presente de despedida da caixa da lanchonete; tomaram o caminho para Umuarama, de acordo com o plano traçado por Erika.
A primeira noite na estrada foi de aventura e festa; a segunda pura excitação; mas no terceiro dia veio a chuva e o desconforto de caminhar com roupas molhadas. Ao mesmo tempo, a nova componente da turma era obrigada a parar freqüentemente por ataques de vômito, o que a enfraquecia para a jornada. No final da segunda semana, Érika se sentia como se fosse uma Angélica com mais idade, quando a encontrou de cabelos duros, cinzentos e pele coberta por camadas de poeira, confundindo-se com o bronzeado da insolação excessiva. Ela não entendia como Aparecido e sua irmã conseguiam ser tão felizes naquela situação. Para eles tudo era uma questão de seguir em frente toda vida. Assim, numa parada para busca de trabalho entre Toledo e Palotina, a descoberta de uma carreta em abastecimento com placas de Campo Grande acabou sendo uma tentação irresistível. Enquanto Cidão preparava cimento e Angélica, depois de um belo banho, conversava com as gentes dos carros que paravam na lanchonete para alguma refeição, Erika se acertou com o caminhoneiro, embarcando no veículo que logo seguiu viagem. A cena foi vista pelos irmãos, que ficaram como estatelados, sem reação. A moça, como despedida, abriu a janela e chorando berrou que os amava, mas deveria seguir seu próprio caminho.
Os próximos dias foram muito silenciosos. A saudade batia forte e o que restava de Erika era só o retrato dela com o uniforme da escola, o qual Aparecido guardou durante toda a vida como sua maior relíquia. Umuarama já não era mais destino. Afinal de contas, aquele futuro já fazia parte do passado e a regra mandava seguir em frente toda a vida. Mas tudo estava mudado. A vaidade de Angélica e seus cabelos os obrigavam a paradas maiores, onde o relento dos postos de combustíveis era substituído por quartos em pensões. Além do mais, a menina desabrochava e sua sede para leitura era cada vez maior, gerando a necessidade de maior tempo de trabalho para seguir adiante. Assim, ao chegarem nos arredores de Araçatuba, aquela que mal sabia caminhar em Florianópolis, se transformara em uma linda ruiva de aproximadamente 1m 75 cm. Além disso, o aprendizado de Angélica a fez, naturalmente, assumir a liderança da família, o que caiu no gosto de Aparecido. Afinal de contas, ele preferia trabalhar recebendo ordens e não ter a preocupação de antecipar os próximos passos de quem quer que seja.
Não demorou muito para que a irmã seguisse seu próprio destino. A longa caminhada havia dado a oportunidade para que Aparecido aprendesse várias profissões. Além de frentista, ele desenvolveu notável habilidade como pedreiro, cortador de cana, tendo também algumas noções de hidráulica. Não foram poucos os convites para estabelecer raízes. Sua regra era seguir em frente toda a vida; este era seu destino, pensava. Já um homem feito, ele nunca havia tido sequer carteira de identidade até meses antes da despedida de Angélica. Nas suas leituras (que já incluía jornais e revistas informativas de pouco atraso) ela compreendeu perfeitamente que mesmo sendo uma andarilha, tinha direitos em seu país, podendo usá-los na medida em que conhecesse funcionamento das coisas. Por esse motivo, durante muito tempo encheu os ouvidos de Aparecido para que fizessem identidade e CPF. Mas o rapaz que, já há algum tempo, mesmo não sabendo, havia ultrapassado a barreira dos 20 anos, ainda evitava qualquer problema que os pudessem fazer parar no juizado. Tal impertinência durou até 1991, quando passando por Uberlândia os irmãos foram atraídos por algo que parecia uma grande quermesse. Pensando que fosse a entrada de algum espetáculo, ou distribuição de comida, se posicionaram atrás de uma longa fila. Ao final da tarde estavam de cabelo cortado, com os dentes em dia, alimentados e portando cédula de identidade, CPF e carteira do trabalho. Pela primeira vez desde a chamada da escola, Aparecido pronunciava seu nome completo: Aparecido dos Santos. Mas a senhora responsável por tal registro ouviu não se sabe de onde o termo Ferreiro. Automaticamente acabou batizando o rapaz de Aparecido dos Santos Ferreiro e a irmã de Angélica dos Santos Ferreiro. No início da noite saíram do Ação Global, na busca de algum pouso seguro e seco, evitando por algumas horas a chuva que os acompanhava havia semanas.
Aquele foi um dia tão movimentado que eles nem repararam no rapaz de óculos e jaleco, que não tirava com os olhos dos dois. Inclusive os seguiu, escondido no seu carro, até a pensão em que alugaram um quarto. Na manhã seguinte saíram do estabelecimento com o intuito de buscar a direção da rodovia mais próxima. Doutor Sandoval não perdeu mais tempo e estava esperando pelos dois: meio tímido e inseguro, abriu a porta da camionete e ofereceu carona. Angélica, atônita, se parou a trocar olhares com o rapaz. Aparecido foi rápido. Puxou a irmã pelo braço e os dois seguiram caminho. Depois daquela cena, como que por mágica, Cidão começou a sentir saudades da longínqua Érika. Mas os encontros à distância com o homem do jaleco passaram a ser freqüentes por onde eles estivessem. Até que meses mais tarde, em Itumbiara, enquanto Aparecido trabalhava numa obra de posto de combustível, Sandoval finalmente se aproximou de Angélica. Pouco depois, ela foi, já segurando na mão de seu homem, na direção do irmão para a despedida.
- Cidão, a minha caminhada termina aqui. Vou fazer minha família com Sandoval. Ele será bom para mim. Também quero estudar como fez Érika e ter profissão. Então, este é o nosso adeus meu irmão, a não ser que você queira voltar para Uberlândia e ficar lá.
Aquelas palavras foram emocionantes para os três. Aparecido ficou em silêncio, apenas baixando a cabeça para esconder as lágrimas. No seu íntimo sabia que este momento estava para acontecer e queria felicidade da irmã, cuja linha de destino haveria mesmo de se separar da dele algum dia. Por fim, antes de virarem de costas, cada qual na sua direção, Sandoval lhe colocou nas mãos um cartão com seu endereço e telefones para contato. Este papel foi colocado junto com a fotografia de Erika, que vista agora, não parecia mais o retrato de uma mulher, mas sim uma menina com olhos sonhadores.
Depois daquela despedida, muito tempo havia se passado e afora algumas reprises de recordação, Aparecido evitava o hábito de se prender ao passado, sempre seguindo em frente toda a vida. No caminho até Brasília, a única coisa diferente que aconteceu foi a troca do velho e apodrecido carrinho de mão pela carroça de papeleiro, comprada novinha em folha numa fábrica de Anápolis.
E lá estava ele indo na direção do aeroporto de Brasília na véspera de Natal de 2006, com o objetivo de catar as latas de alumínio dos restaurantes e bares do terceiro andar. Normalmente não permitem a entrada de maltrapilhos naquele lugar. Mas Cidão sabia como se comportar. Certa vez começou freqüentar cultos em uma igreja e foi escolhido pelo pastor para recolher donativos dos fiéis. Para isso que ganhou terno, gravata, sapato preto e duas camisas que logo começaram a se mostrar mais úteis do que o imaginado e por isso eram tratados com todo o zelo e asseio na parte mais protegida da carroça (uma espécie de gaveta inventada por ele mesmo). Já se preparando para estacionar seu veículo perto da espera do ponto de táxi, onde fez muitas amizades lavando carros, ele recebeu o papel no rosto e o guardou no bolso para depois ver do que se tratava. Atrás da árvore de sempre, trocou a roupa, não se esquecendo de pegar a folha amarela. Mas o momento era para apressar. Afinal, a tarde estava no final e precisaria fazer pelo menos cinco viagens entre o aeroporto e a carroça para carregar discretamente razoável quantidade de latas manualmente prensadas, destinadas à reciclagem do Guará.
No caminho, com alguma dificuldade, conseguiu ler o nome de Aparecido dos Santos Ferreira no bilhete aéreo. Evidentemente confundiu com seu próprio nome. Chegando na área de embarque, reparou numa grande fila de pessoas empunhando um papel parecido com o qual o vento havia lhe levado. Pelo jeito, parecia ser uma espécie de Ação Global, onde ele havia sido muito bem tratado, apesar da perda da irmã. Assim, até valia a pena esquecer das latas e aproveitar o corte de cabelo, o tratamento dos dentes e até fazer uma nova identidade, já que a antiga, apesar de bem-cuidada, estava ressequida. Depois de mais ou menos meia hora de espera, Cidão chegou no atendimento do balcão da companhia aérea. A atendente, sem se perder em detalhes, pediu pelo bilhete com check in já feito e disse:
- o vôo para Porto Alegre foi cancelado, mas podemos acomodar o senhor na aeronave que está encerrando o embarque agora, com destino ao Guarulhos, onde ainda há uma conexão confirmada para o seu destino. Posso providenciar a troca?
Não entendendo nada do que foi dito, o andarilho catarinense, apenas fez sinal com a cabeça concordando com o que aquela moça de boca rápida e pequena falava. Prontamente, outra mulher uniformizada o pegou pelo braço na direção de labirintos que acabaram desembocando em algo que parecia um cano enorme, cheio de poltronas, que bem lembravam aquelas cadeiras de dentista. Aquilo era estranho. Mas na vida de Aparecido, de uma certa forma, tudo havia sido meio estranho mesmo. Assim, ele se acomodou no fundo daquele grande corredor, na poltrona ao lado daquela janela redonda.
Seus temores começaram quando aquela grande sala começou a se mover. Acabou perdendo os sentidos, mesmo permanecendo sentado, ao ter o corpo projetado para trás por um grande impulso e olhar pela janela as coisas da terra ficando cada vez menores.
Só foi abrir os olhos no ambulatório do Aeroporto Internacional de Guarulhos.
sexta-feira, 6 de julho de 2007
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